segunda-feira, setembro 21

nariz

Falar do teu cheiro e do prazer que ele me dá é redundante. Falar do cheiro da tua boca, do teu corpo e da tua alma faz com que eu os sinta perto de mim. Mesmo com alguns longos e muitos metros a nos separar. Quero te sentir e te cheirar até esse cheiro me penetrar e me embriagar. Quero te cheirar como droga, com dependência. Quero te cheirar até me sentir tua e sentir que te tenho sem passado, só com o presente a nos amar e o futuro a nos esperar. Quero o cheiro de coisa boa que você me prometeu nas noites de amor. Quero o cheiro de estarmos só, sem ninguém a te desejar. Quero o cheiro da certeza desse nosso amor, desse nosso querer. Quero a certeza, mesmo sabendo que a incerteza que brota sempre que ruídos aparecem é uma das coisas que mais me faz tua. Quero o teu nariz, tão afilado, a apontar o caminho que nos espera. Quero o teu nariz a tentar driblar o meu no momento do beijo. Beijo de seda com nariz de taboca.

boca

'Eu te amo'
'Eu também'
'Eu te quero'
'Eu te quero muito'
'Assim você me mata'
'Vem'
'Vou'
'Vamos'

Tantas palavras a circular o coração. Palavras que cheiram a riso e lágrima. Palavras que tranquilizam e envolvem. Palavras que, quando interrompidas pelo teu silêncio, encantam ainda mais. E, ansiosamente, faz a minha boca esperar pelo beijo teu. Beijo doce, delicado. Beijo que faz parar o tempo e me joga nos teus braços. Tua boca na minha, teu sorriso no meu, tua voz e a minha cantando em uníssono a nossa canção. Boca que enxerga o quanto o amor reserva as metades certas para juntá-las. Metade silêncio, metade palavras. Um só olhar. Um só amor.

olhos

Me dê a tua mão e deixe o meu peito transbordar de sossego. Eu te quero mais do que posso explicar. Essa imensidão de sentimento me inquieta. Logo eu, que "sozinha me bastava"... Mas me atrái. Fecho os olhos e vejo os teus na minha frente a me olhar. Olhar que penetra, que invade, que me desnuda. Olhar que me faz querer fechar os olhos pro mundo e pular de cabeça nessa água de amor, de desejo. Olhinhos puxados como do outro lado do mundo. Olhinhos que são gigantes, alucinantes. Meus olhos, minha janela, janela da minha alma.

domingo, setembro 20


passa a nuvem negra
e larga o dia
e vê se leva o mal
que me
arr a sou.

sábado, junho 27

sobre partir II

por qual razão permitimos a presença do que nos faz mal?

terça-feira, junho 9

sobre partir

seque a lágrima, sorria, me dê as mãos, me ame.
me ame como só você sabe.
e veja, nos meus olhos, num dia de sol ou nas cores da lua,
que aonde quer que eu vá, eu levo você.

somos um nó.

vou com você.
vou por você.
vôo com você.

sobre aparências


se olhe no espelho quando quiser me enxergar.
você não sou eu, é verdade.
mas eu sou você.
ali, no seu reflexo, estarei lhe amando, olhando, admirando e querendo.
sempre.
ali, no reflexo, estarei desejando que você perceba
que as coisas são simples, são pequenas.
as coisas são diferentes.
e eu não sou o que muitas horas eu reflito.

espelhos engordam, muitas vezes.


deixa eu poder reclamar 
o tempo passado sem te desfrutar?

amor,

virei vocativo pro amor.
ele me chamou.
me levou até ti.
me levou ao teu beijo, cheiro, peito.
me levou e, em ti, me largou.

o amor virou vocativo pra mim.

basta que eu o chame para te ter.
teu nome é amor, meu amor.
é teu e meu esse amor.
o amor nos chamou.
é meu e teu esse amor.
meu, teu, nosso.
e só.

amor não é vocativo.

terça-feira, setembro 30

The core of mans' spirit comes from new experiences.
If we admit that human life can be ruled by reason, then all possibility of life is destroyed.
I'm going to paraphrase Thoreau here: rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness. Give me truth.
I read somewhere how important it is in life not necessarily to be strong, but to feel strong.

quarta-feira, setembro 24

culpa da.

eu não sou a culpada.
muito menos você.
despertador é uma praga.
erva daninha, não.
sou da noite.
não tenho medo de bicho papão.
nem de ladrão.
de despertador, sim.
por isso, prefiro partir
a continuar escrevendo
essas tolas frases curtas.
frases que não têm ar de paixão,
nem de inteligência
e muito menos de algo interessante.
frase que, quando amontoadas,
podem até dar um ar de palavras elaboradas
a fim de parecerem, ocasionalmente, legais.
mas elas não passam de pura tolice.

não ter pra quem escrever resulta
em registros tão
ridículos
que parecem obra dos escritores de cartas de amor.

recônditos

sem ti, minto esses recônditos,
sentimentos que inexistem.

porque não querer te ter.

te quero feito fantasia doce.
doce que lambuza,
embriaga
e faz delirar de prazer,
por ser tão delicioso.
é, te quero assim,
mas sabendo sempre que
fantasia e realização nunca vão dar as mãos.
onde uma começa, a outra acaba.
te ter acabaria com ela e eu não teria mais em quem pensar.

sábado, junho 14

volta, tempo.

só tenho a idéia de falar algo, quando a hora certa já passou. escuto sorrindo e, muitas vezes, fazendo parecer que não me importo, que não reparo, que não entendo. mas não. ali, fico cobrando de mim mesma respostas instantâneas. mas os instantes se desencontram nos caminhos confusos da minha cabeça. eu, que não sofro de ansiedade, vergonha ou medo, ainda assim, calo quando devo falar. simplesmente, porque as palavras me somem. ai, horas depois, dias depois, noites depois, me vem como inspiração tardia a palavra que me faltou. então, esse silêncio carregado da idéia que eu deveria ter tido naquela hora, com aquela pessoa, naquela situação, me tortura por remoer o que não foi.

volta, tempo.

sossega, coração, não desesperes

sossega, coração!
não desesperes!
talvez um dia, para além dos dias,
encontres o que queres porque o queres.
então, livre de falsas nostalgias,
atingirás a perfeição de seres.
mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
pobre esperança a de existir somente!
como quem passa a mão pelo cabelo
e em si mesmo se sente diferente,
como faz mal ao sonho o concebê-lo!
sossega, coração, contudo!
dorme!
o sossego não quer razão nem causa.
quer só a noite plácida e enorme,
a grande, universal, solene pausa
antes que tudo em tudo se transforme.




(fernando Pessoa)

sábado, maio 24

e tudo mudou

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...

... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças

(L. F. Veríssimo)

terça-feira, maio 6

tinto

Foi culpa dele que trouxe o calor.
Ele aqueceu meu corpo
e coração,
que estava frio,
como o gelo que ali faltou
para resfriá-lo.
É, pensando assim, foi culpa da ausência do gelo.
O gelo esquentou, derreteu, escorreu.
Foi culpa dele que veio sem rótulo,
sem gosto, sem gelo.
Traga-no, agora, por favor,
em um cale-se.
Em um cale-se que, de tão cheio, chegue a transbordar.
Para que eu possa, nesse silêncio,
beber dele até embriagar-me.
Foi culpa dele que veio fermentando,
enchendo, esquentando, escorrendo.